A América Latina voltou a registrar um fenômeno natural de grande intensidade nessa sexta-feira (9/10), quando um terremoto de magnitude 7,6 atingiu o Panamá, provocou evacuações, danos a estruturas e alertas de tsunami em áreas costeiras. O episódio chama a atenção para os riscos geológicos da região, que também enfrenta secas prolongadas, enchentes, ondas de calor e tempestades severas.Também nessa sexta-feira, o Chile decretou estado de calamidade por conta de fortes chuvas que causaram deslizamentos e enxurradas nas regiões de Las Condes e Santiago.Catástrofes naturais na América Latina em 2026Terremotos: Além do abalo no Panamá, Colômbia e Venezuela também sofreram terremotos de grande magnitude em agosto e junho, respectivamente.Enchentes e deslizamentos: Em fevereiro, chuvas intensas provocaram mortes e deslizamentos em Minas Gerais, no Brasil. Em agosto, temporais causaram inundações no Peru, com danos a moradias e estradas.Tempestades: Em outubro, chuvas fortes causaram alagamentos e cortes de energia no Chile. No Paraguai, temporal com granizo e ventos fortes atingiu Assunção e a região Central em 3 de outubro, danificando casas e veículos.Incêndios: Em janeiro, Chile e Argentina enfrentaram incêndios de grandes proporções. No Chile, as chamas atingiram Ñuble e Biobío; na Argentina, afetaram a Patagônia, incluindo a província de Chubut. Os incêndios destruíram casas e vegetação e provocaram evacuações.Secas: Entre junho e setembro, Guatemala, Honduras e El Salvador enfrentaram estiagem, escassez de água e prejuízos agrícolas associados ao fenômeno El Niño.Apesar de ocorrerem no mesmo continente, terremotos e catástrofes climáticas têm causas distintas. Enquanto os abalos sísmicos estão relacionados principalmente à movimentação das placas tectônicas, os eventos climáticos extremos são associados a processos atmosféricos e oceânicos, que podem ser intensificados pelas mudanças climáticas.Para o sismólogo da Universidade de São Paulo (USP) José Alexandre Nogueira, a localização geográfica ajuda a explicar a ocorrência de terremotos na região. A costa do Pacífico das Américas Central e do Sul está em uma área de intensa atividade tectônica, onde diferentes placas interagem e acumulam tensões que podem ser liberadas na forma de tremores.“A costa do Oceano Pacífico nas Américas do Sul e Central está localizada em uma região de intensa atividade tectônica, onde diferentes placas interagem constantemente, colidindo, afastando-se ou movendo-se lateralmente umas em relação às outras. Esses movimentos acumulam tensões nas rochas, que podem ser liberadas na forma de terremotos”, explica o especialista.No Panamá, essa dinâmica envolve as placas do Caribe, de Cocos, de Nazca e Sul-Americana, além de uma possível microplaca do Panamá, cuja existência ainda é debatida.Mais registros não significam necessariamente mais terremotosApesar da percepção de que os tremores estão mais frequentes, não há evidências marcantes de aumento da atividade sísmica na região, segundo o sismólogo do Observatório Nacional Diogo Coelho. Para ele, a ampliação do monitoramento ajuda a explicar por que esses fenômenos são detectados e divulgados com mais frequência.“Agora, com mais estações sismográficas na América Latina transmitindo dados em tempo real, como faz a Rede Sismográfica Brasileira (RSBR), conseguimos detectar e divulgar os eventos sísmicos regionais. Por isso, existe a impressão de uma sismicidade alta na região”, explica.Também é difícil estabelecer uma relação concreta entre o terremoto no Panamá e outros abalos registrados recentemente em diferentes regiões. Segundo Coelho, os mecanismos que provocam os tremores podem ser bastante distintos, e o conhecimento e a instrumentação disponíveis ainda não permitem mapear completamente as forças geológicas em atuação.“Além disso, não temos o controle de todos os parâmetros físicos em subsuperfície para mapear todas as forças geológicas atuando e como o meio responde a esses esforços geológicos”, afirma.E por que a América Latina registra tantos terremotos?Parte da explicação está no chamado Círculo de Fogo do Pacífico, uma extensa faixa ao redor do oceano marcada pela intensa atividade sísmica e vulcânica. Países como Chile, Peru, Equador, Venezuela, Colômbia e México estão expostos a esse tipo de fenômeno. A América Central e parte do Caribe também apresentam áreas de intensa movimentação tectônica.Apesar da ocorrência de tremores de grande magnitude em diferentes países, Nogueira afirma que não há evidências de um aumento generalizado da atividade sísmica na América Latina. Segundo ele, a impressão de que os terremotos estão mais frequentes pode estar relacionada à ampliação das redes de monitoramento e à rapidez na divulgação das notícias.“Esses eventos sempre foram comuns devido à alta atividade sísmica na região. A impressão de que estão mais frequentes pode estar relacionada à maior cobertura das redes sismográficas e à rapidez na divulgação de notícias”, afirmou.5 imagensFechar modal.1 de 52 de 5Terremoto na Venezuela deixou mais de 5 mil mortosJavier Campos/NurPhoto via Getty Images3 de 5Reprodução4 de 5Terremoto fez desabar mais de 500 edifícios na ColômbiaAlexis Munera/Anadolu via Getty Images5 de 5Terremoto de magnitude 6,7 atinge o PeruServiço Geológico dos Estados Unidos (USGS)O aquecimento global provoca terremotos?Não há evidências de que as mudanças climáticas sejam responsáveis pelo aumento generalizado de terremotos de grande magnitude. Os abalos são provocados principalmente pela liberação de tensões acumuladas nas rochas, em decorrência da dinâmica interna da Terra.Já enchentes, secas e ondas de calor estão relacionadas a processos atmosféricos e oceânicos. Embora determinadas mudanças ambientais possam influenciar falhas geológicas em circunstâncias específicas, isso não permite atribuir automaticamente um terremoto ao aquecimento global.Nogueira também ressalta que terremotos registrados em diferentes países não estão necessariamente relacionados entre si. “Os últimos terremotos que tivemos ocorreram em sistemas tectônicos distintos e não possuem relação entre si”, explica.Assim, a ocorrência de um tremor no Panamá enquanto outros países enfrentam eventos climáticos extremos não comprova que os fenômenos façam parte de uma única onda de desastres. Leia também MundoTerremoto de magnitude 7.7 atinge o Panamá e gera alerta de tsunami MundoDuas semanas após terremoto, novo tremor de magnitude 5,1 atinge a Colômbia MundoTerremoto de magnitude 7,2 atinge o Peru nesta quinta (20/8) MundoTerremoto de magnitude 7,4 atinge o México e causa alerta de tsunami As catástrofes climáticas estão mais intensas?Diferentemente dos terremotos, muitos eventos climáticos extremos são influenciados diretamente pelo aquecimento global. O aumento da temperatura média do planeta aquece os oceanos, altera a circulação atmosférica e intensifica o ciclo da água, favorecendo episódios de chuva intensa, secas e calor extremo.Um relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM), divulgado em maio de 2026, apontou que a América Latina e o Caribe enfrentaram, em 2025, calor recorde, secas persistentes, chuvas extremas e ciclones tropicais devastadores. O documento também destacou o recuo das geleiras, que ameaça o abastecimento de água e pode aumentar determinados riscos de inundação.O fenômeno El Niño e sua fase oposta, La Niña, também influenciam a distribuição das chuvas e das temperaturas. Seus efeitos variam conforme a região e a época do ano e podem atuar simultaneamente às mudanças climáticas.Como explica Nogueira, terremotos e fenômenos climáticos têm origens diferentes. Enquanto os primeiros decorrem principalmente da liberação de tensões acumuladas nas rochas, eventos como enchentes, secas e deslizamentos estão ligados a processos atmosféricos e superficiais.“Terremotos e fenômenos climáticos têm origens distintas. Os terremotos são causados principalmente pela liberação de tensões acumuladas nas rochas, geradas pela dinâmica interna do planeta. Já eventos como enchentes, secas e deslizamentos estão relacionados a processos atmosféricos e superficiais”Por que fenômenos naturais se transformam em tragédias?A intensidade de um terremoto ou de uma tempestade não determina, sozinha, o tamanho de uma catástrofe. A qualidade das construções, a ocupação do território, a exposição da população e a capacidade de resposta das autoridades também influenciam os danos.Em áreas sísmicas, construções sem estrutura adequada podem desabar durante um abalo. Nas cidades, a ocupação de áreas sujeitas a alagamentos, a falta de drenagem e a degradação ambiental podem agravar os efeitos das chuvas intensas.A prevenção depende de monitoramento científico, sistemas de alerta, planos de evacuação, códigos de construção e infraestrutura adequada para reduzir a vulnerabilidade da população.É possível prever novos terremotos?A ciência consegue identificar regiões com maior risco sísmico e estimar probabilidades de ocorrência ao longo do tempo. No entanto, ainda não é possível prever com precisão o dia, o horário e o local exato de um grande terremoto antes que ele aconteça.Após um abalo, o monitoramento ajuda a identificar possíveis réplicas, que podem ocorrer enquanto a região se ajusta à redistribuição das tensões provocada pelo tremor principal.Na área climática, os avanços científicos permitem prever tempestades e emitir alertas de chuvas intensas, ondas de calor e ciclones. A antecedência e a precisão, porém, variam de acordo com o fenômeno.O terremoto no Panamá reforça a importância de compreender os diferentes riscos naturais que atingem a América Latina. Embora terremotos e eventos climáticos extremos tenham causas distintas, o desafio dos países da região é semelhante: ampliar a prevenção, reduzir a vulnerabilidade das populações e melhorar a capacidade de resposta diante de desastres.












