Matheus Leitão

Em live com Tati Bernardi, deputado orientou militância a evitar posts rivais. Bolsonaristas comentaram vídeo sobre Nossa Senhora Aparecida

Matheus Leitão
13/10/2026 08:59, atualizado 13/10/2026 09:00
Reprodução/Redes sociais
No feriado de Nossa Senhora Aparecida, duas cenas das redes sociais se cruzaram sem combinar. De um lado, o deputado André Janones (Avante-MG) orientou a militância a não comentar em publicações de adversários.
Do outro, o candidato Flávio Bolsonaro (PL) e o ex-coach Pablo Marçal fizeram exatamente o oposto e comentaram no vídeo em que a cantora Juliette Freire questiona a ligação de Flávio com o bispo JB Carvalho.
O comentário de Flávio (“Quem é 22 curte!”) acusa a peça de explorar eleitoralmente a santa e de usar “a maior fake news das eleições”. Até a noite dessa segunda (12/10), somava cerca de 104 mil curtidas e mais de 6.100 respostas.
Marçal deixou apenas emojis com o número do PL e um “M”, que acumulavam 57 mil curtidas e mais de 1.400 respostas. No topo da seção aparecem comentários fixados de apoio, como o da deputada Erika Hilton e o do perfil Revelando, que divulga o episódio completo.
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Por que comentar ajuda quem se ataca
Os algoritmos do Instagram e de outras plataformas tratam comentários e respostas como sinal de relevância, sem distinguir apoio de rejeição. Uma discussão com milhares de réplicas aumenta o tempo de permanência na publicação e indica à plataforma que vale distribuí-la a mais gente.
Há ainda o efeito vitrine: quando uma conta grande comenta, seus seguidores tendem a ver a publicação destacada, muitas vezes com o próprio comentário em evidência.
Na prática, Flávio e Marçal levaram o vídeo de Juliette para dentro da bolha bolsonarista, um público que dificilmente o encontraria sozinho. É o que se chama de “furar a bolha”.
A lição de Janones
Na mesma segunda, em live com a escritora Tati Bernardi, Janones pediu à militância que não comente em posts de adversários. A recomendação foi genérica, sem menção ao vídeo de Juliette, e segue a lógica de não entregar engajamento a quem se quer combater.
O deputado construiu fama de estrategista digital. Conhecido pela “guerrilha digital”, já se propôs a ensinar “o bê-a-bá das redes sociais” à comunicação do governo Lula. A abordagem busca manter os adversários ocupados reagindo a provocações. Ou seja: atrair o comentário alheio e negar o próprio.
O argumento a favor de comentar
Nem todo especialista vê só prejuízo. Ocupar a seção de comentários é uma forma de disputar a narrativa diante de quem já está assistindo, sobretudo eleitores indecisos que leem as respostas mais curtidas.
O comentário de Flávio funciona como contraponto embutido no vídeo adversário. O custo é entregar alcance; o ganho, plantar a contranarrativa no lugar de maior audiência.
O pano de fundo
O tema pesa na reta final da campanha. Foi esta coluna que revelou o livro “A Bomba: A verdade pode ser explosiva”, publicado em 2001 pelo bispo JB Carvalho, que batizou Flávio.
Na obra, o religioso critica o título de padroeira de Nossa Senhora Aparecida. Por outro lado, o ministro André Mendonça, do TSE, classificou como “notoriamente inverídica” a associação de Flávio ou de sua família à iniciativa de retirar o título da santa.
O vídeo de Juliette não afirma que Flávio propôs a mudança: questiona a proximidade com o bispo. A campanha do PL sustenta que o tema é explorado de forma eleitoreira.

