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Precoce e em ritmo recorde, fenômeno deste ano apresenta comportamento inédito, altera padrões do clima e desafia modelos de previsão em meio a secas e tempestades extremas

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Motorista empurra veículo em rua alagada durante forte chuva em Ahmedabad, na Índia — Foto: Shammi Mehra / AFP
O El Niño deste ano exibe mais do que força. Ele tem ineditismo. E isso o faz uma usina de incertezas. Ele já é forte e há 90% de probabilidade de chegar a muito forte. Mas cientistas ainda não sabem dizer o que isso representa em extremos de seca, chuva e calor. Uma série de fatores tornam o fenômeno um desafio para os modelos de previsão, incluídos os de IA.
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Por ora, os efeitos não são muito diferentes de El Niños anteriores, como seca na América Central e parte da Amazônia e chuvas no Sudeste da América do Sul.
Mas, turbinada por mudanças climáticas, a situação é tão nova, que não se descarta que ele tenha efeitos inversos ao esperado em alguns lugares ou que afete regiões antes poupadas.
Infográfico detalha os impactos globais em curso do El Niño, destacando o aquecimento das águas do oceano, pontos de seca e chuvas intensas pelo mundo e a previsão de precipitação. — Foto: Editoria de Arte / O Globo
Nenhum El Niño é igual ao outro. E a estranheza do atual vem de berço. O ponto do Pacífico Equatorial onde um El Niño se forma influencia seu comportamento, explica Regina Rodrigues, professora de Oceanografia e Clima da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e uma das autoras do boletim que a Organização Mundial de Meteorologia lançará sobre o aquecimento dos oceanos.
Há El Niños que se formam no Pacífico Central. Outros emergem no Pacífico Leste, junto à costa Oeste da América do Sul. São chamados de El Niños Costeiros. É o caso do atual.
Historicamente, os Niños Centrais são mais fortes. Este é o primeiro Costeiro forte desde o final da década de 1990, quando a Terra era mais fria, ressaltou à Nature o climatologista Eran Vos, da Universidade Bar-Ilan (Israel).
O forte Niño Costeiro de agora ganha corpo num cenário de mudanças climáticas, com o planeta mais quente e os oceanos com temperaturas recordes.
Mas berço não é tudo. Este Niño também é precoce. Ele se desenvolveu mais cedo que os Niños fortes anteriores. E se intensifica em tempo recorde. Porém, Rodrigues ressalva ser arriscado prever o quanto se fortalecerá ou mesmo se, assim como começou antes, perderá fôlego mais cedo.
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Após passar um mês com uma anomalia de 1,8ºC (categoria forte), ele passou no dia 14 para 2ºC. Porém, para ser classificado como muito forte seria necessário que a anomalia média fosse igual ou superior a 2ºC por três meses, o que é esperado acontecer até dezembro, segundo a Agência de Oceanos e Atmosfera dos EUA (NOAA, na sigla em inglês).
O que faz diferença
Rodrigues salienta que a probabilidade do El Niño causar um desastre resulta de uma combinação de fatores e não só da intensidade.
O primeiro fator é o lugar onde está a colossal piscina de água quente no Pacífico, onde a temperatura da água supera 29ºC.
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Este é o limiar de aquecimento a partir do qual a água do mar evapora muito rápido e é lançada uma quantidade enorme de umidade e energia na forma de calor no ar. Essa energia alimenta nuvens gigantescas.
O lançamento maciço de energia também perturba a atmosfera e são geradas ondas. Estas produzem sistemas de alta (seca) e baixa (úmida) pressão. Porém, essa bolha quente não é fixa e se desloca de centro para leste ao longo da faixa equatorial do Pacífico.
Outro fator é a interação com os chamados jatos atmosféricos, os rios voadores. São os jatos que carregam e espalham a umidade da Amazônia, por exemplo. É preciso que haja coincidência de local e momento para que as ondas e os jatos se encontrem. Como atmosfera e oceano são fluidos em movimento, nem sempre isso acontece ou causa problemas.
— É por isso que um El Niño nunca é igual ao outro. Ele pode ter uma anomalia imensa e não causar chuvas devastadoras ou nem ser de categoria muito forte e levar a uma catástrofe — explica Rodrigues.
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O local onde está a piscina quente também influencia a região onde há impacto. Em geral, a região 3.4 influencia mais Amazônia, Austrália, EUA e sul da Índia. Já a 3 pode ter mais efeitos na chuva no Sul do Brasil.
A inundação do Rio Grande do Sul em 2024 é um exemplo de combinação catastrófica.
— Estamos ansiosos para saber onde será o máximo de temperatura no Pacífico. Dependendo da região, haverá mais ou menos influência no Brasil, por exemplo — afirma o coordenador do Núcleo de Apoio à Pesquisa em Mudanças Climáticas da Universidade de São Paulo (USP), Tércio Ambrizzi.
Novas conexões
Se não bastasse sua complexidade natural, o El Niño deste ano evolui num mundo sob mudança climática. Isso pode ampliar os extremos, alerta Christopher Callahan, da Universidade de Indiana (EUA). Na Nature, ele diz que uma das maiores dúvidas é saber se este evento interagirá com a mudança climática a ponto de produzir impactos maiores do que a soma de suas partes.
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Outra questão é se os efeitos podem ser diferentes. Segundo a Nature, há sinais de que os padrões de como o El Niño historicamente influenciou o tempo, chamados de teleconexões, começaram a mudar.
Estudos de Vos mostram que eventos de El Niño causaram temperaturas mais altas no sul da Ásia e no nordeste da África entre 1960 e 1990. Mas, desde então, o El Niño passou a reduzir a temperatura nessas mesmas áreas.
Com Europa Ocidental aconteceu o contrário. Ela passou de mais fria durante um El Niño para mais quente, como ocorreu de forma brutal este ano.
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Vos enfatiza que a imprevisibilidade do El Niño dificulta a preparação dos países. “Sabemos menos sobre as teleconexões da nova atmosfera”, admite ele.
Furacões atrasados
Outra alteração estaria em curso neste momento. Uma anomalia no Atlântico pode estar se somando ao El Niño para impedir a formação de furacões no Caribe, México e EUA.
A temporada de furacões no Atlântico vai de junho a novembro. O auge é setembro. Mas, até agora nenhum se formou. Em 175 anos de registros, só os anos de 1907 e 1914 não tiveram furacões.
Anos de El Niño têm menos furacões porque o fenômeno provoca ventos fortes e secos no Atlântico Norte e corta o combustível de umidade. Mas, além disso, este ano a atmosfera na região do Atlântico Tropical Norte está anormalmente estável.
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Isso significa que quase não há contraste na temperatura do ar em diferentes camadas da atmosfera. E o contraste é um dos ingredientes para a geração de furacões, explicou ao Washington Post o especialista Michael Lowry.
Isso não significa que não haverá furacões este ano e sim que, como a atmosfera está mais “lenta”, o pico da temporada pode estar atrasado.
Seca e chuva
Mas pesquisadores dizem que, até agora, os efeitos deste El Niño assemelham-se aos de eventos anteriores.
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Eles se fazem notar no chamado Corredor Seco da América Central (Costa Rica, El Salvador e Guatemala, Honduras e Nicarágua). Dezenas de milhares de pequenos agricultores perderam safras, são obrigados a racionar comida e a vender o gado.
A diretora regional do Programa Mundial de Alimentos da ONU, Lena Savelli, alertou à AFP que até 16 milhões de pessoas na América Latina podem enfrentar escassez de alimentos.
O impacto da seca vai além da fronteira dos países do corredor. A redução da vazão dos rios tem desacelerado o tráfego no Canal do Panamá, que utiliza água doce para encher suas eclusas e os navios possam passar.
No Caribe, uma seca histórica causa racionamento de água em Porto Rico e Jamaica.
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Na Ásia, a Indonésia sofre com o início precoce dos incêndios florestais. As monções se enfraqueceram em partes da Índia e se intensificaram em outras.
Chuvas fortes e neve no Chile e no Peru causaram inundações, interromperam a mineração de cobre e fecharam Machu Picchu para turistas. O Sudeste da América do Sul, como o Sul do Brasil e o Uruguai, tem enfrentado com a intensificação das chuvas.
Porém, o diretor do Departamento de Clima e Sustentabilidade do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCTI), Osvaldo Moraes, frisou em evento que não existe correlação direta entre um superevento de El Niño e a magnitude dos impactos que ele pode causar.
Estes são ainda mais imprevisíveis do que o próprio fenômeno e dependem de variáveis humanas, como a concentração da população em áreas de risco, e a capacidade de resiliência de um local.
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