No dia do pagamento do brasileirinho, ele beija o aplicativo do banco com a euforia de quem recebeu visita do Arcanjo Gabriel. Ao dizer “seja bem-vindo”, aparecem: o aluguel, a luz, a água, o cartão e aquela prestação que ele jurava ser a última. O salário mal tira o sapato e já precisa sair voando.É uma cena engraçalhada até acontecer na nossa casa. A pessoa trabalha o mês inteiro, vê o dinheiro entrar e começa a distribuí-lo entre credores que parecem ter combinado uma reunião na nossa sala. Quem recebe primeiro? O aluguel exige prioridade. A conta de luz ameaça apagar a reunião. O cartão informa, educadamente, que aceita pagamento mínimo — uma gentileza que só pode sair caríssima, no país que comemora, com trinta e oito ministérios, entregues aos mais analfabeatles stalinistas, os juros mais altos do mundo.Depois vem a feirinha dos trincados pequenos agricultores e o supermercado. A gente, como talentosos negociadores, comparamos marcas, trocamos produtos e consultamos o preço por quilo com a concentração de quem decifra um contrato internacional. Se o tomate está caro, compramos outra coisa. Se a outra coisa também está, o jantar vira uma assembleia de substituições. O simpático tomate está se transformando em inimigo.O nosso Banco Central registrou endividamento das famílias próximo de metade de sua renda anual em dados divulgados neste ano. Isso não significa que cada família deva metade do salário todo mês: a medida compara o estoque das dívidas com a renda acumulada em doze meses. Mas confirma que há muita obrigação futura disputando o dinheiro dentro do nosso bolso… hoje.Nem adianta transformar o trabalhador em culpado oficial. Há compras por impulso e dívidas mal planejadas, sim. Também há famílias que parcelam porque a geladeira quebrou, o remédio não pode esperar ou a renda simplesmente acabou antes do mês. Tratar tudo isso como falta de educação financeira é como recomendar organização de gavetas a quem precisa de um armário de parede.O crédito é para ajudar numa emergência. O problema começa quando ele vira complemento permanente do salário. O Banco Central explica que a Selic, taxa básica de juros, influencia as taxas cobradas em empréstimos e financiamentos. Isso não quer dizer que toda prestação tenha a mesma taxa da Selic; cada modalidade tem seu custo. Quer dizer que o preço do dinheiro importa muito para quem precisa tomá-lo emprestado.E é aí que a conversa deixa de ser apenas doméstica. O governo, através de alguém com credibilidade, deve mostrar como pretende reduzir a pressão sobre o custo de vida, melhorar os serviços públicos e criar condições para uma renda maior. O Congresso precisa lembrar que uma despesa aprovada em Brasília não desaparece por encanto: alguém paga a conta. Bancos e lojas devem apresentar o custo total das parcelas com clareza, antes que o “cabe no bolso” vire “não termina nunca”.Precisamos fazer perguntas aos candidatos. Não basta prometer dinheiro no bolso. De onde virá? Quanto custará? Quando chegará? E qual conta ficará para depois? Em época eleitoral, promessa sem resposta é uma prestação escondida: a surpresa aparece no vencimento. Esses candidatos que temos, hoje, resolverão? A ministra da Economia do lar já não acredita. Como acreditar? Todos os dias aparecem novas aventuras do Vorcaro. Um dia ele está dançando forró com a Constituição e, no outro, Xaxado com a Moeda.O brasileirinho sabe fazer conta. Faz no ônibus, na fila da farmácia, diante da prateleira. O que ele não consegue é multiplicar salário por decreto ou convencer o boleto de que o mês teve despesas inesperadas. E já olha para o agiota como olhávamos para o Papa João de Deus. Aí a porca torce o rabo com muita dor de barriga.No próximo pagamento, seria bom que o dinheiro pudesse passar mais tempo com quem o ganhou. Porque trabalhar trinta dias para receber uma visita de trinta segundos já deixou de ser piada. É o retrato de uma casa onde o salário entra pela porta da frente e as prestações o escoltam pelas quatro janelas.O brasileirinho, de frente para a televisão, assiste à pirotecnia dos atuais candidatos e sente que a solução está depois da Ponte para o Paraguai.Roberto Caminha Filho, economista, já se encontra com muitos colegas de classe que voltaram para o interior e vivem na agricultura.










