Uma carta militar escrita durante as campanhas de Napoleão Bonaparte foi decifrada mais de dois séculos depois com ajuda de inteligência artificial (IA). O documento, produzido em 1809, traz instruções estratégicas sobre a posição de tropas francesas e aliadas pouco antes de um confronto com o Império Austríaco.A mensagem era destinada ao marechal Auguste de Marmont e estava registrada em uma imagem de baixa qualidade publicada em 1969. O conteúdo permaneceu indecifrado por décadas até ser reconstruído pelo engenheiro de inteligência artificial Carter Church, que utilizou o modelo GPT-6 Astra, da OpenAI, criadora do ChatGPT, para analisar os símbolos e reconstituir o texto original.Documento combinava letras, números e sinaisA carta reúne cerca de 1,3 mil sinais, entre números, letras e símbolos desenhados à mão. O sistema utilizado era uma cifra homofônica, em que uma mesma letra pode aparecer representada por diferentes sinais, o que dificulta a leitura.Antes de tentar entender o conteúdo, a inteligência artificial precisou transformar a imagem em dados organizados. O processo incluiu identificar símbolos repetidos, alinhar as linhas e criar uma versão transcrita do documento. Leia também Ilca Maria EstevãoChatGPT lança recursos de compra e intensifica entrada da IA na moda MundoOpenAI revela que ChatGPT publicou por engano imagens enviadas por usuários SaúdeMãe descobre sintomas de AVC do filho de 7 anos após pesquisa no ChatGPT BrasilChatGPT, Claude e Gemini: usuários reclamam de instabilidade em apps de IA Parte da chave era conhecida a partir de estudos anteriores, mas a maior parte da mensagem precisou ser inferida com base em padrões da língua francesa e na repetição dos sinais ao longo do texto.Reconstrução testou hipóteses até formar texto coerentePara chegar ao resultado, o sistema testou diferentes combinações possíveis até encontrar uma sequência que formasse frases coerentes em francês. O método comparou as soluções com estruturas comuns do idioma e verificou se cada símbolo mantinha o mesmo significado em todas as ocorrências.O processo também identificou sinais que representavam palavras completas, como artigos e pronomes, o que ajudou a acelerar a reconstrução da mensagem.O resultado foi revisado por um criptógrafo independente, que considerou o caso resolvido em um banco de dados que reúne cifras históricas ainda não decifradas.Conteúdo revela movimentação de tropasA mensagem descreve a posição de diferentes exércitos sob comando francês e de aliados, incluindo forças da Baviera, Polônia e Saxônia. Também traz informações sobre deslocamentos austríacos e orientações para o marechal responsável por cerca de 13 mil soldados na região da Dalmácia.O texto buscava orientar o general e reduzir o risco de interceptação, em um momento de preparação para o conflito.A reconstrução também ajudou a corrigir a data do documento, que havia sido registrada de forma incorreta em publicações anteriores. O conteúdo indica que a carta foi escrita em março de 1809, poucos dias antes da ofensiva austríaca.Uso de IA reúne etapas diferentesAlém do conteúdo histórico, o caso mostra como ferramentas de inteligência artificial podem reunir tarefas que antes exigiam diferentes especialistas, como leitura de manuscritos, análise de códigos e interpretação histórica.O trabalho foi feito a partir de uma única imagem e levou cerca de seis horas para ser concluído. Segundo o responsável pelo projeto, a etapa mais difícil não foi gerar hipóteses, mas confirmar que a solução encontrada era consistente em todo o documento.Para ele, esse tipo de abordagem pode ser aplicado a outros registros históricos ainda não decifrados.






