Na primavera, o Acampamento Base do Everest vira uma pequena cidade sobre a geleira Khumbu. Um estudo de 2026 calculou que a urina da temporada carrega calor suficiente para derreter cerca de 154 toneladas de gelo e neve. O resultado não substitui o peso do aquecimento global, mas revela um impacto local que quase nunca entra na conta.
O que o estudo realmente calculou no Everest
A pesquisa Effects of human activity on Khumbu Glacier analisou dados da temporada de primavera de 2023. Os autores reuniram medições de campo, consumo de combustíveis e imagens de satélite para estimar fontes locais de calor. Assim, o trabalho não pesou diretamente o gelo derretido pela urina, mas calculou quanta energia o líquido poderia transferir à neve e ao gelo.
Segundo o estudo registrado pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos, combustíveis e urina somaram 849.174 megajoules de energia térmica. Essa quantidade seria suficiente para fundir 2.492 ± 528 toneladas de gelo e neve. Portanto, as 154 toneladas atribuídas ao calor da urina representam uma parcela desse efeito local calculado, não uma medição direta.
🏛️ 1991: começa a série Landsat analisada pelos pesquisadores.
🌿 2023: dados de campo registram a temporada usada nos cálculos.
🚀 2026: o estudo é publicado na Regional Environmental Change.
Por que a urina entrou na conta do derretimento
Atividades humanas geram calor local na neve - Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)
A lógica é simples, embora o resultado pareça estranho. Em grande altitude, alpinistas e trabalhadores mantêm hidratação constante, então o campo produz mais de 6 mil litros de urina por dia na alta temporada. Como parte desse líquido chega ao gelo, seu calor passa a integrar o balanço energético local.
Os pesquisadores estimaram que essa energia seria suficiente para derreter aproximadamente 154 toneladas durante uma temporada. Contudo, isso não significa que cada litro provoque uma quantidade fixa de degelo observável. Temperatura do líquido, condições da superfície e troca de calor interferem no processo, por isso o número funciona como equivalência energética.
O problema é maior do que 154 toneladas de gelo
O dado mais chamativo não é o maior do estudo, pois combustíveis usados no campo respondem pela maior parcela do calor local estimado. Além disso, o trabalho separa esse efeito da transformação climática de escala muito maior. A própria pesquisa trata mudança climática global, combustíveis e urina como pressões diferentes sobre o mesmo ambiente.
O ICIMOD informa que geleiras do Hindu Kush Himalaia perderam cerca de 12% de sua área entre 1990 e 2020. Portanto, a urina não explica a retração regional. Ela mostra como atividades rotineiras acrescentam calor justamente onde milhares de pessoas se concentram sobre um sistema já vulnerável.
Quando o campo-base funciona como uma cidade temporária
Durante a primavera, o acampamento reúne barracas, cozinhas, aquecimento, geração elétrica, equipes de apoio e fluxos constantes de pessoas. Desse modo, a questão deixa de ser apenas o gesto isolado de urinar na neve. A concentração transforma atividades pequenas em uma fonte mensurável de calor e resíduos, exatamente sobre a geleira Khumbu.
A gestão de lixo também virou parte permanente da operação. A Sagarmatha Pollution Control Committee atua na região desde 1991, com ações de manejo de resíduos e proteção ambiental. Ainda assim, urina e calor produzido no campo mostram um desafio diferente, pois nem todo impacto pode ser recolhido e retirado da montanha.
Fonte local
O que entra no cálculo
Combustíveis
Calor de gás, querosene e gasolina usados no campo.
Urina
Calor transferido pelo líquido descartado sobre neve e gelo.
A montanha também registra o calor da presença humana
Entre 1991 e 2023, os pesquisadores calcularam no acampamento uma tendência de aumento de 0,28°C por ano na temperatura da superfície. A tendência foi cerca de duas vezes maior que na superfície adjacente da Khumbu. Entretanto, essa comparação não prova que todo o aquecimento veio das atividades do campo.
O estudo usa o contraste para mostrar que o local merece atenção específica. Além disso, os autores identificaram dois terrenos estáveis a sudoeste como opções caso o acampamento precise sair da geleira. Isso não resolveria o degelo climático, porém afastaria parte da infraestrutura de uma superfície já em transformação.
O que a fila deixa no gelo
O caso do Everest transforma um hábito banal em medida concreta da concentração humana sobre uma geleira extrema, remota e limitada. As 154 toneladas não competem com a escala do aquecimento global, mas revelam uma pressão local evitável e repetida. Ao acompanhar as próximas temporadas, observe como infraestrutura, resíduos e energia mudam quando milhares de pessoas ocupam o mesmo ponto. A história importa porque mostra que até impactos pequenos ganham outra dimensão quando se acumulam repetidamente no mesmo lugar frágil.
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